Santa Paula Elisabetta Cerioli
Uma vida ferida pelo amor e transformada em missão.
Período I: Infância e Formação (1816-1835)

Costanza Onorata Cerioli nasceu em 28 de janeiro de 1816 em Soncino, província de Cremona, numa família nobre e abastada de proprietários de terras. Seu pai, Francesco Domenico Cerioli, era um homem de sólidos valores tradicionais, administrador justo e preciso; sua mãe, a condessa Francesca Corniani, era conhecida por sua profunda religiosidade e caridade, a ponto de ser chamada de “Mãe dos pobres”. Costanza foi a décima sexta de muitos filhos, dos quais grande parte morreu ainda na infância.
Nascida em condições frágeis de saúde, que a marcariam por toda a vida com uma constituição delicada e um defeito cardíaco, foi imediatamente batizada em casa. Sua primeira educação se deu em um ambiente familiar orgulhoso de suas tradições religiosas, morais e de seu papel social. Foi uma educação severa: a mãe a tratava com rigor, habituando-a a suportar os sofrimentos sem reclamações — lição que Costanza reconheceria mais tarde como providencial para a formação de um caráter forte. Desde menina, mostrou-se sóbria, tímida mas generosa, e particularmente sensível aos pobres, que frequentemente acompanhava sua mãe para socorrer.
Aos dez anos, em 15 de novembro de 1826, entrou como educanda no prestigiado mosteiro das Visitandinas de Alzano Maggiore, província de Bergamo, já frequentado por sua mãe e por uma tia. Permaneceu ali cerca de quatro anos, até 19 de fevereiro de 1831, com uma breve interrupção por motivo de saúde. O educandário, muito estimado pela aristocracia lombarda, oferecia formação moral, religiosa e cultural de alto nível, inspirada na espiritualidade salesiana da doçura e da amabilidade. Costanza recebeu ali ótima instrução, estudando italiano, francês, história, geografia, música e trabalhos manuais, como atestam dois de seus cadernos de anotações e traduções. Essa experiência a marcou profundamente, fazendo nascer nela uma forte atração pela vida religiosa contemplativa. Contudo, por obediência à vontade dos pais — que ela considerava expressão da vontade de Deus — aceitou voltar para a família.
Período II: Casamento e Maternidade Dolorosa (1835-1854)
De volta a casa, Costanza viveu quatro anos de maneira reservada, entre as tarefas domésticas, a oração e o bordado. Seguindo os costumes das famílias patrícias da época, seus pais arranjaram-lhe o matrimônio. Em 30 de abril de 1835, aos dezenove anos, casou-se na paróquia de Soncino com o nobre Gaetano Busecchi-Tassis, um homem de quase sessenta anos, viúvo da condessa Maria Teresa Tassis, de quem herdara o título e o patrimônio, incluindo a villa de Comonte, em Seriate.
A vida conjugal foi marcada pela grande diferença de idade e pelo caráter do marido, homem honesto mas solitário, pedante e de humor inquieto por causa de seus males físicos. Costanza viveu num profundo isolamento, dedicando-se com paciência heróica e submissão ao cuidado do esposo, que mais parecia um pai que um marido. A união foi abençoada com o nascimento de quatro filhos, mas três faleceram em tenra idade. O único sobrevivente, Carlo Francesco Alessandro (nascido em 20 de outubro de 1837), tornou-se a única consolação e o centro de todo o amor materno de Costanza.
Sua dedicação ao filho foi total. Educou-o pessoalmente nos valores cristãos e, quando chegou o momento, matriculou-o em novembro de 1846 no prestigiado Colégio Sant’Alessandro de Bergamo, dirigido por dom Alessandro Valsecchi. Costanza acompanhava com amor e preocupação seu percurso, visitando-o frequentemente e compartilhando com ele, nas férias, momentos intensos de diálogo e formação. Contudo, uma dura provação se abateu sobre a família: em junho de 1853, Carlo, ainda com quinze anos incompletos, foi obrigado a deixar o colégio por causa da tuberculose. Apesar dos cuidados e das orações da mãe, a doença prevaleceu e ele faleceu em 16 de janeiro de 1854. Onze meses depois, em 25 de dezembro de 1854, morreu também o marido Gaetano. Aos trinta e oito anos, Costanza encontrava-se viúva, sem filhos e única herdeira de um vasto patrimônio.
Período III: Vocação e Fundação (1854-1857)
A morte do filho e do marido deixou em Costanza um vazio imenso e um profundo desejo de preenchê-lo com obras de caridade. As palavras ditas pelo filho no leito de morte — «Oh! o Senhor te dará outros filhos» — ressoaram nela como uma profecia divina, orientando sua busca.
Iniciou então um intenso percurso de discernimento espiritual, guiada por dois membros do Colégio Apostólico de Bergamo: seu diretor espiritual e novo bispo, dom Pietro Luigi Speranza, e o cônego Alessandro Valsecchi. Embora inicialmente inclinada a entrar em institutos já existentes, como as Filhas do Sagrado Coração, sentia forte impulso interior para uma vida mais humilde: «Sinto-me, ao contrário, chamada a uma vida mais pobre e a conviver com pessoas de condição mais baixa», confidenciou ao bispo Speranza.
O bispo a guiou com firmeza, exortando-a a desapegar-se das preocupações materiais para buscar unicamente a vontade de Deus em oração e recolhimento. A virada decisiva ocorreu quando, por conselho de seu capelão, decidiu acolher em sua villa de Comonte duas órfãs, em 3 de abril de 1855. Esse gesto marcou a passagem de uma obra de beneficência tradicional para um compromisso direto e totalizante. Logo outras jovens se uniram a ela como colaboradoras, entre elas a fundamental Luigia Corti (17 de maio de 1855), e o número de órfãs cresceu. Costanza abriu também uma escola de caridade para as meninas camponesas da região, privadas de instrução.
Nesse período — que ela mesma definiu como “ano de prova” (iniciado oficialmente em 1º de novembro de 1856 sob a guia do bispo) — amadureceu sua vocação específica. Percebeu que nenhum instituto existente correspondia à sua inspiração: dedicar-se exclusivamente à classe camponesa, “a mais abandonada”, educando as meninas não apenas para a vida cristã mas também para o trabalho agrícola, reinserindo-as como “boas e úteis mães de família” em seu próprio ambiente. Em fevereiro de 1857, após emitir privadamente os votos, redigiu o “Impianto”, documento programático de seu novo instituto, e assumiu o nome de Irmã Paula Isabel. Em 8 de dezembro de 1857, nascia oficialmente o Instituto das Irmãs da Sagrada Família.
Período IV: Desenvolvimento da Obra (1858-1865)
Os últimos anos de sua vida foram intensos e fecundos. Inspirada no mistério da Sagrada Família de Nazaré — modelo de vida pobre, humilde e laboriosa — imprimiu ao instituto um carisma único. Estabeleceu um estilo de radical partilha: as irmãs, chamadas pelo povo de “irmãs camponesas”, deviam partilhar em tudo a condição das meninas, inclusive o trabalho manual nos campos, considerado parte essencial da vida religiosa. Abandonou o conforto de sua residência para viver em um quarto pobre, dando exemplo pessoal da pobreza evangélica que queria como fundamento de sua obra.
O instituto cresceu rapidamente. Para acolher o número crescente de órfãs (já 33 em 1861), construiu um novo edifício em Comonte. Sua obra expandiu-se além da Casa-Mãe:
- Abril de 1862: abriu uma casa em Villacampagna, próxima a Soncino.
- Abril de 1863: adquiriu e inaugurou o grande ex-convento de Santa Maria, em Soncino, que se tornou importante centro para órfãs, escolas externas (com mais de 140 alunas) e oratórios festivos.
- Setembro de 1863: fundou uma terceira casa em Leffe, no Vale de Gandino, graças à doação dos bens de uma nova religiosa, irmã Costanza Dedei.
Realizou ainda o sonho originário: em 4 de novembro de 1863 deu início ao ramo masculino da congregação, os Filhos de São José, na casa de Villacampagna. O início foi difícil, mas encontrou no jovem Giovanni Capponi o primeiro colaborador fiel para educar os órfãos camponeses.
Apesar das dificuldades, das críticas pela originalidade de suas escolhas e dos receios das novas autoridades do Reino da Itália, a obra de Paula Isabel consolidou-se, recebendo apoio tanto do bispo de Bergamo como do de Cremona, dom Novasconi.
Sua saúde, já frágil, agravou-se no último ano. Acometida de hidropisia no peito, continuou trabalhando incansavelmente até o fim, completando as Regras e escrevendo cartas para orientar suas comunidades. Faleceu serenamente na noite da véspera de Natal, em 24 de dezembro de 1865, aos 49 anos. Seus funerais em Seriate reuniram povo, clero e autoridades civis, testemunhando o fascínio de uma mulher autenticamente evangélica e de grande impacto social.
Descobrir a espiritualidade da Sagrada Família
A Sagrada Família de Nazaré inspira uma missão simples, fiel e entregue.
Cantos
Espaço dedicado aos cânticos ligados à espiritualidade da Sagrada Família e à memória de Santa Paula.

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